Estes são dos temas que mais me assustam enquanto futura mãe.
Sei que ser mãe será, como referi no primeiro post, uma construção-desconstrução constante, e que irei aprender muito com o meu filho.
Hoje a ver as celebrações fúnebres do Dr. Mário Soares, ia reflectindo na educação e valores que os meus pais e avós me têm vindo a transmitir ao longo destes últimos 30 anos. E sinto que tenho tanto por agradecer. Assusta-me não saber fazer o que eles fizeram comigo. Todos sem excepção e desde sempre contaram-me a nossa história familiar sem qualquer tipo de pudor, a minha família tem os valores que tem por tudo o que passaram, as dificuldades e as vitórias conseguidas. Nunca viram os tempos mais difíceis como algo para esquecer, mas sim recordar e aprender.
Apresentaram-me a cultura, a história nacional e mundial, a música, o gosto pela leitura e pela escrita, as ciências exactas e as artes.
Deram-me a liberdade que julgaram ser indicada em cada fase da vida, mostraram-me os diferentes caminhos e desde que me lembro que as escolhas e decisões tiveram que ser tomadas por mim, porque só assim podia compreender as consequências dos meus actos e escolhas. A primeira grande e importante escolha que tive que tomar foi aos 9 anos, quando estava a terminar a escola primária. Andei na escola primária do filtro em Peniche e os meus colegas iam todos para a escola D. Luís de Ataíde também em Peniche. Os meus pais apresentaram-me duas opções: continuar com os mesmos colegas ou ir para outra escola (a da Atouguia da Baleia) na qual não conhecia ninguém e podia fazer novos amigos. A minha decisão recaiu por esta última opção. A verdade é que os meus grandes amigos continuam a ser os que me acompanharam do 5ºD ao 9ºA (o famoso 9ºA - um dia explico).
E assim foi ao longo dos vários anos, com a escolha da minha formação, o meu percurso académico e profissional, a minha vida pessoal - tive que tomar as decisões. Mas o mais importante para mim é que sempre soube que numa mão eles davam-me liberdade e na outra mão o amparo para o caso de algo não correr tão bem. Já desde dos meus 19 anos que não vivo em Peniche a tempo inteiro, mas a verdade é que é ali que me sinto em casa, é para onde vou muitos fins de semana e férias, é ali que me reencontro e sinto-me bem (apesar de adorar o local onde vivo atualmente e a minha casa).
É esta responsabilidade: a de transmissão de conhecimentos, educação, valores, liberdade que me assusta. Espero, ambiciono e desejo que o meu filho daqui a uns anos sinta por nós pais o mesmo que eu sinto pelos meus.
"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive."
Ricardo Reis, in "Odes"
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